
Outro jeito de Mãe: Crônica ou História... Vilma Duarte Tem mãe de todo jeito nesse mundo velho sem porteiras... Se tem! A melhor sem dúvida é a tua que te criou feliz. Sei muito pouco do assunto no sentido literal. No literário, crio minhas fantasias... A minha morreu quando eu tinha dois anos. Nunca lhe vi um retrato. O pai, eu já tinha seis. Procurei a mãe uma vida, nas formas e pessoas mais diferentes, até me casar por imenso amor. Prometi- me ser uma especial para as minhas sonhadas quatro meninas. A primeira tinha até nome escolhido: "Anelise". Um erro médico amputou-me o útero mocinha, sem dó do meu sonho de ser mãe. Minhas garotas cresceram embaladas nesses sonhos... só de sonhar... Meu amor virou meu pai, minha mãe, minhas meninas e a gente era feliz de doer a alma de emoção. Nunca cobrou-me a fragilidade de não ser a mulher do ofício principal. Amou-me. Todos os dias de muitos anos, enquanto escrevíamos a duas mãos capítulos intensos e memoráveis da mais bela história de amor. E foi. Era a minha. Dia das Mães faz seis anos que ele morreu. Perdi outra vez a minha mãe. Desde então tenho dois Anjos-Mãe, lá no céu. Tive de reaprender a viver enquanto carregava nos ombros toda a orfandade do mundo. Sem revolta e desespero. Escorada na fé e na esperança, companheiras tão cúmplices e resistentes na batalha complicada de sobreviver. Campeã no jogo do contente, muito antes de saber da menininha, que queria uma boneca, ganhou um par de muletinhas e ainda ficou feliz por não ter de usá-las, arroguei-me o direito de ser um pouco mãe do meu jeito, e olha, não é de hoje... Meu afeto incondicional pelo ser humano e minhas palavras vivem em perene procriação. O coração pode ser um útero muito especial. Nele gerei minhas três crias, os livros publicados, no mais doce, poético e emocionante pré-natal. Nutri esperanças sem conta em fetos atrofiados ainda depois de nascidos, subnutridos de amor. Afaguei no meu colo fértil milhares de alunos que tantas vezes chamaram-me Mãe com os olhos de alegria. E oferecerei sempre esse calor para os tristes, os doentes, os sem horizonte, e os fora do lugar. Milagrosamente útero-coração não tem tempo marcado de função. E com a graça de Deus, que não me larga as mãos, tenho conseguido, heroicamente, confesso, gerar as minha dores e pari-las em forma de poesia. É sublime. Faz-nos ganhar pontos na tentativa de melhorar todos os dias. Depois que pousei aqui, no ninho quente da Maytê, tenho voado mais longe. Vôos condoreiros ou brasileiros... Há pouco, um dos milhões de visitantes do remanso aconchegante perguntou-me textual: "Você é assim, porque nunca sofreu na vida"? Respondo-lhe outra vez: — Meu bem, sou apenas um pouco mãezona do mundo... Ei! não te foi legado um filho? Fica triste, não. Arruma o teu outro jeito de ser mãe. |